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Mestre da xilogravura
Leonardo Benedito
23/07/2018 07h28
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(Claudinho Coradini/JP)
 
O nome de batismo é Maria Ignês Trevisan, mas ela adotou Marilu Trevisan como assinatura no meio artístico, o qual já integra há meio século. Nasceu em Piracicaba em 11 de junho de 1938. É filha da dona de casa Ernesta Turqui e de Pedro Trevisan, que trabalhava na usina de açúcar do bairro Monte Alegre, mas foi criada pela tia Augusta Trevisan, irmã de Pedro, e Pedro Módulo, marido de Augusta, porque a mãe dela morreu quando estava prestes a completar dois anos de idade. Passou a infância ao lado dos sete irmãos de criação, sendo a caçula da família.
 
Ex-mulher de Fernando Aforta, vendedor de seguros e de carros, com o qual foi casada por oito anos, Marilu não teve filhos. Na época do colégio, contou nesta entrevista ao Jornal de Piracicaba que gostava de jogar vôlei, futebol e chegou até a praticar atletismo. 
 
Marilu é formada em Desenho e Plástica pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo desde 1968, em pedagogia pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) em 1971 e em Educação Artística pela Faficile (Faculdade de Filosofia Ciências e Letras), de Tatuí (SP), (1976). Foi professora de artes da rede pública até se aposentar. Hoje, se dedica à xilogravura (técnica de fazer gravuras em relevo sobre madeira) e outras técnicas de impressão em papel com tinta e moldes entalhados em seu ateliê, situado em Piracicaba. Conquistou diversos prêmios e menções honrosas em salões por todo o Brasil ao longo da carreira. Ministra oficinas para iniciantes e interessados em conhecer a arte da gravura e expõe obras em mostras individuais e coletivas. Esta em cartaz, inclusive, uma exposição com obras de autoria dela, a Gravuras e Colagens por Marilu Trevisan, que pode ser vista até 27 de julho no CCMW (Centro Cultural Martha Watts), com entrada gratuita.
 
Como é o processo de trabalho da xilogravura e como iniciou o contato com esta técnica artística?
 
Quando eu comecei a fazer a xilogravura, não sabia do que se tratava. Fiz uma pergunta bem cretina para a minha professora: ‘para quê serve a xilogravura? É para ilustrar livro?’, porque até então eu conhecia como ilustração, e ela respondeu: ‘não, a gravura não precisa ter utilidade, a gravura é uma forma de expressar, como você se expressa com a tinta óleo ou com a aquarela pintando. Você pode explorar só desenhando e você pode explorar a sua arte gravando’, que é o que eu faço. Comecei a fazer xilogravura e fiquei deslumbrada com isso. Foi amor à primeira vista. Eu não sei dizer o porquê da coisa, mas eu sei que o sentimento de quando você talha a madeira sem vida, a hora que você tinta e depois vê a figura no papel é a maior emoção. É exatamente aquilo que você fez na madeira saindo no preto e branco. Minha gravura é quase sempre no preto e branco. As pessoas gostam de cor e às vezes eu ponho um pouco de cor. Tem obras em que eu pinto o fundo e depois gravo com o preto em cima.
 
Como você trabalhava a xilogravura com os seus alunos?
 
Dei aula de arte por 25 anos em colégio, primário e ensino médio. Sempre falei sobre a xilogravura e dei oportunidade para meus alunos fazerem. Eu tenho minha consciência tranquila em relação a divulgar a arte no geral e a xilogravura também. Levei alunos à noite e ia a pé até o teatro municipal para verem uma exposição, mesmo que não fosse de xilogravura. Qualquer tipo de arte eu sempre ajudei a divulgar muito.
 
Qual foi o primeiro trabalho artístico da sua carreira?
 
Se não me engano, foi em 1967. Sei que foi um trabalho que produzi durante o meu segundo ano de faculdade. A gravura se chama Menino Brasileiro e está presente no meu livro de 50 anos de carreira como artista plástica. Ele foi premiado no Salão Paulista de Belas Artes e é um dos motivos que me fez ficar na carreira de artista plástica.
 
O que é preciso para ser um xilogravurista?
 
Sempre falo que a xilogravura é mais artesanal. Para criar o desenho na madeira é preciso ter um certo nível de habilidade manual. E mais. Não é só a arte de retratar a figura, é a arte de manusear as goivas e formões.
 
Quais são suas inspirações?
 
Observo muito as pessoas e sempre desenhei elas, principalmente durante a época do colégio, por andar todos os dias de trem para ir estudar. No trajeto, eu observava a expressão das pessoas, o formato do corpo delas e o jeito de ser de cada um. Observei muito os moradores de rua também. Toda minha vida me inspirei na figura humana, me inspiro, às vezes, no desenho da criança também, por sempre ter dado aula para os pequenos. A partir de um certo ponto da minha carreira, passei a retratar o folclore brasileiro, o candomblé e objetos e formas do cotidiano, como uma latinha ou uma vela acesa. E eu exploro muito o engenho por causa do pessoal que vem de fora, muitos estrangeiros, e que quer comprar coisas que lembrem daqui. Eu fazia muito gravuras com formas da cana-de-açúcar por causa da região, representações da Rua do Porto e do rio Piracicaba.
 
Como você descreve as figuras humanas presentes nas suas gravuras?
 
As figuras têm um olhar muito triste e eu não sei porque, pois não sou uma pessoa triste. As lavadeiras (1969), O pedinte (1969) e outras obras, assim como o Menino brasileiro (1967), expressam um olhar triste. Eu deveria ter uns 26, 28 anos. Uma vez pedi para uma moça que morava comigo para fazer uma pose para eu produzir uma nova obra e ela simplesmente botou a mão no rosto e jogou o cabelo para frente. É um imagem bem forte e melancólica. Eu não pedi pra ela fazer isso, ela simplesmente fez e eu só retratei.
 
Você foi influenciada por algum gravurista?
 
A Belas Artes era uma faculdade de ponta na época e nos levava muito a exposições e bienais de arte que aconteciam em São Paulo. Quando eu comecei a fazer a xilogravura, não conhecia ninguém que fizesse, era tudo totalmente novo para mim. Um tempo depois, eu conheci o Oswaldo Goeldi. Ele fazia uma gravura que lembra muito a minha. Goeldi foi o primeiro gravador brasileiro a fazer a xilogravura no Brasil. Depois de formada é que eu fui conhecer a gravura dele e muitas pessoas falavam para mim ‘Nossa, a sua gravura parece com a do Goeldi’. Outro gravador que admiro também é o Lasar Segall.
 
Um fato curioso é que eu expus com essa gente muito importante no Masp (Museu de Arte de São Paulo). Quando eu cheguei lá e vi uma obra do Lasar Segall, eu falei ‘Meu Deus!’. Ele já era falecido, claro, mas a gravura dele estava lá ao lado da minha.
 
Como surgiu a oportunidade de participar dessa exposição?
 
Essa exposição foi muito importante para mim. O legal é que meu professor de artes com modelo vivo, que conheci quando veio para Piracicaba dar aula, indicou meus trabalhos para a diretora (que também era coordenadora e curadora da mostra). Ela viu, analisou e gostou das minhas gravuras. Por fim, ela acabou me convidando para expor. Eram 100 artistas gravadores do país inteiro convidados para participar dessa exposição que se chamava Do Cordel à Galeria. Muitos acham que a xilogravura lembra muito o cordel. Lembra, sim, mas não são a mesma coisa. Enfim, eu gosto muito do cordel também.
 
Você já pensou em fazer outra coisa que não fosse arte?
 
Não. Eu só queria fazer a arte e só a gravura. Eu ficava só na sala de gravura. Eu fazia tanta gravura na faculdade que eu não queria participar de outras aulas e a faculdade acabou implicando com isso. Passaram a trancar a porta para abrir só em dia de aula mesmo. No segundo ano de curso, fui premiada com o Menino Brasileiro e, depois, de novo no Salão Paulista, um salão superimportante. Aquilo me fez ver até onde poderia ir a minha habilidade.
 
Você sempre teve apoio da sua família para esta carreira?
 
Sempre. Meu pai entendia pouco de arte, ninguém na minha família era ligada à arte, mas também ninguém nunca me impediu de fazer nada e isso já é apoiar, não? Uma vez, o meu pai falou ‘Se você me devolver todo o dinheiro que você gasta com papel e eu jogar no bicho, um dia eu acabo ficando rico’ e eu respondia ‘Eu também. Se um dia a minha arte dar certo, eu vou ser rica!’, mas arte não dá riqueza para ninguém, mas eu nunca quis parar.
 
Qual foi a sua primeira exposição?
 
A primeira mesmo foi lá em São Paulo, no Salão Paulista, em que fui premiada com o Menino Brasileiro.<BF> <XB>A primeira exposição em Piracicaba foi na sede de um grupo que competia em eventos de escola de samba chamado Ekyperalta. Foi uma exposição só com xilogravuras minhas. Tinha bastante trabalhos, eram duas salas, não era muito grande a sede... Na verdade, nunca me importei com quantos trabalhos meus eram expostos. Depois da exposição no Ekyperalta, fiz outras no Teatro Municipal, no Sesc, no CCMW e vários outros lugares. Minha primeira exposição internacional foi em Belvézet, na França. Também foi a primeira exposição individual no exterior. As outras que participei depois aconteceram na Alemanha, na Bélgica, Nicarágua e na América Central.
 
Qual a sensação de expor internacionalmente seus trabalhos?
 
Eu nunca fui muito deslumbrada com essas coisas. Um amigo meu foi quem levou meus trabalhos para a França. Foi ele quem montou e quem fez todos os preparativos para mim. Eu nem fui para a França pra ver a exposição naquela época. Metade das obras foram vendidas na abertura. Fui para a França um ano depois, porque as pessoas que compraram os meus trabalhos queriam me conhecer e meu amigo falou “agora vou dar um jantar na minha casa para as pessoas conhecerem você”, e eu fui e levei uma pasta cheia de trabalhos. Quando cheguei lá, vendi tudo para eles. O estrangeiro gosta muito de xilogravura. O que o brasileiro não dá de valor para xilo, o estrangeiro dá. Eu ainda tenho algumas obras dessa exposição da França, eu tiro muitas cópias que acabam ficando comigo.
 
Qual é o seu trabalho que mais gosta?
 
Tem dois. Eu gosto muito do Moradores de rua VI (2010). É uma isogravura que fiz com o ralo de ferro do meu quintal do meu ateliê. Tintei o ralo e gravei em um jornal bem colorido. Eu acho lindo esse trabalho e mantenho ele em meu ateliê. Eu não sei de onde tirei a ideia de fazer esse trabalho, mas eu fiz uma ligação entre o morador de rua e o jornal que eles usam muito para deitar em cima e dormir.
 
E tem as Ex Libris, que é um selinho que as pessoas fazem para colocar na coleção de livros que elas têm, para identificar quem são delas. Talhei e gravei o portão da casa de um amigo meu e paisagens do Rio de Janeiro para ele e o interessante disso é que uma revista francesa publicou o meu trabalho com Ex Libris, o que acabou sendo a primeira publicação oficial da minha arte em um meio de comunicação. (Obras de 2002).
 
Nesses 50 anos trabalhando com xilogravura, quais as maiores dificuldades que surgiram?
 
>Hoje em dia, para produzir, nem tanto, porque eu tenho todo o material que preciso em casa e gosto de fazer as coisas manualmente também. Mas a dificuldade, como toda a arte hoje em dia, é vender a xilogravura, ainda mais por ela quase sempre não ter cor. O povo gosta de cor. Na xilogravura colorida você tem que fazer uma matriz para cada cor, essa é a dificuldade para fazer a colorida. O leigo dá mais valor para uma obra pintada na tela e enquadrada que para uma gravura que é feita no papel. O papel ainda é considerado uma arte menor, infelizmente. Existe muita falta de conhecimento. O povo tem muito contato com a pintura e conhece mais do que a xilogravura. Eles não sabem o que é a xilogravura e o leigo acaba chamando de carimbo. Eu não tenho preguiça de explicar. Para mim, é tão comum e tão óbvio aqui, mas não é para todo mundo.
 
Como são suas aulas de xilogravura?
 
Acho que o aluno quando encara sozinho a dificuldade do formão, das goivas, do ato de entalhar a madeira e tirar copia, acaba aprendendo mais do que com aulas continuadas. Eu gostaria que outras pessoas continuassem fazendo a xilogravura, porque é uma arte milenar e deveria ter mais atenção, mas existem mais pessoas pintando telas do que gravando. Toda vez que a prefeitura abre inscrições para ministrar oficinas gratuitas para a população, eu me candidato, mas vejo que a procura é muito pouca. O Sesc oferece muitas oportunidades para artistas realizarem oficinas e interessados participarem delas. Eu sempre peço 15 alunos por oficina, porque você tem que dar atenção pessoal para cada uma, mas sempre apareceu oito, nove ou dez alunos, nunca apareceu quinze e é falta de conhecimento, de saber do que se trata a oficina. Por fim, essa é uma forma de tentar manter viva a arte.
 
Qual a sua visão sobre as manifestações artísticas de Piracicaba atualmente?
 
Em relação a xilogravura, há bem poucas formas de manifestação da arte. Eu não entendo o motivo, mas o pessoal não conhece a xilogravura e não entende, não sabe do que se trata, infelizmente.
 
No geral, tem bastante. Piracicaba é uma cidade privilegiada no sentido de mostrar a arte da região. Dizem que o interior é muito pobre em relação à arte, mas nossa cidade mostra o contrário. Piracicaba tem chance de se manifestar artisticamente e permitir que as pessoas vejam essas manifestações.
 
 
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